Domingo,
24 , e Segunda-Feira, 25 de Setembro de 2000
Internet
& Cia
Os
desafios do comércio na Web
Entrega,
mau atendimento e falta de serviços são principais queixas
Roberta
Cecchetti
Depois de passarem 99 dias vivendo e consumindo apenas com apoio da Internet
e de um cartão de crédito, os jovens Fernanda Kfuri e Arthur
Ranieri resolveram fazer um balanço do comércio virtual
no Brasil. Embora ambos afirmem que já é possível
sobreviver da Web, o resultado mostra que o mercado eletrônico ainda
precisa de diversos aperfeiçoamentos no País.
Uma das grandes dificuldades que os "e-moços" tiveram
durante a aventura, patrocinada pelo Unibanco, foi a contratação
de serviços. Encanadores, eletricistas e faxineiros ainda não
chegaram à Grande Rede - nem por meio de empresas ou cooperativas
-, fazendo de um simples conserto de eletrodoméstico, por exemplo,
um desafio.
"Vivia reclamando por ter que limpar a minha casa sozinho depois
das festas que promovia. Ainda bem que a produção me ajudava",
conta Arthur. Na casa da e-moça, porém, os problemas foram
mais sérios. Fernanda ficou sem poder utilizar um dos sanitários
do apartamento por causa de um defeito no botão de descarga. "Procurei,
pedi ajuda aos internautas e não consegui localizar um prestador
de serviços desta área para o conserto", relembra.
Carência de serviços
Mesmo assim, Arthur assegura que viver apenas conectado à Rede
é viável. "Ainda existe dificuldade com relação
à conexão, mas tudo vai melhorar com a banda larga. De forma
geral, os sites de busca carecem de melhores mecanismos e o segmento de
serviços ainda está engatinhando. Para se ter uma idéia,
não consegui contratar faxineira nem cabeleireiro", observa.
Outro aspecto negativo mencionado pelos e-moços é a limitação
das formas de pagamento aceitas pelos sites. "Existem sites que não
aceitam cartão de crédito, o que pode burocratizar as compras.
No entanto, acredito que, quando a questão de segurança
estiver melhor resolvida, tudo ficará mais fácil",
diz Arthur.
A disparidade no tratamento recebido das lojas virtuais em caso de problemas
na compra também surpreendeu os jovens. "Algumas atrasam a
entrega, mas avisam. Costumam perguntar se você quer o dinheiro
de volta e se deseja trocar a mercadoria. Em contrapartida, existem estabelecimentos
que sequer respondem um e-mail. O suporte ao cliente é péssimo",
reclama o e-
moço.
Arthur lembra de uma compra em que a loja não levou mais do que
24 horas para debitar o valor de sua conta. Mas a entrega do produto,
prometida para 15 dias, demorou 30 - e faltava uma peça no pacote.
"Não vi problemas em comprar. O que se deve melhorar é
o suporte ao cliente, em todos os sentidos", observa.
O consultor de varejo Marcos Bello confirma que a logística é
a questão mais crítica na Web, seguida da ineficiência
das ferramentas para consulta online. "Encomendei um livro que constava
como disponível e uma semana depois recebi um e-mail dizendo que
estava em falta", conta. O consultor acabou desistindo da compra.
"Houve um desgaste meu e da empresa, que devolveu o dinheiro. Falta
infra-estrutura e existem muitos detalhes operacionais que devem ser resolvidos.
Muitas empresas entram no mercado virtual, mas poucas são totalmente
eficazes", critica.
Marcos Bello acredita que a maioria dessas dificuldades serão resolvidas
no curto prazo e que a vantagem competitiva será de quem conseguir
melhores informações sobre seus usuários. "Com
esse estudo é possível conseguir atender satisfatoriamente
a demanda", destaca.
Antônio César Carvalho de Oliveira, diretor da Acomp Consultoria,
aponta livros, CDs e remédios como os produtos mais fáceis
de se vender pela Internet. "Todos têm padrão reconhecido,
a qualidade é assegurada e já existe o hábito de
consumo".
Poucos
internautas
De acordo com Jameson Rangel, dono da Web Marketing, o ideal é
deixar todas as etapas do processo de compra bastante claras. "Imagine
entrar em uma loja e não achar nada que indique o caixa? Qualquer
pessoa sensata simplesmente iria retornar os produtos às prateleiras
e desistir.
Na Internet, é a mesma coisa. Por incrível que pareça,
muita gente não consegue encontrar o botão ou link que finaliza
a venda e por isso desiste da compra".
O especialista em Internet garante que todas as limitações
no e-commerce podem ser resolvidas a médio prazo. "Um problema
sério atualmente no Brasil é o número pequeno de
pessoas com acesso à Internet. Muitos especialistas comparam o
Brasil aos Estados Unidos. No entanto, lá, 70% dos lares têm
acesso à Rede, enquanto aqui apenas 5%. Portanto, se existe um
limite, é o fato de ainda termos poucos internautas", diz.
Segmento corporativo
Luiz Cláudio de Souza Alves, presidente do Webb Portal, especializado
em transações entre empresas, comenta que o comércio
virtual também ganhará força no segmento corporativo.
"Com relação a sapatos e roupas, por exemplo, no B2C
(varejo), já temos casos de sucesso, como o Shoptime.com".
Alves esclarece que, no tocante ao business-to-business, não resolvem
- e tampouco agregam valor aos meios tradicionais - iniciativas que visam
simplesmente disponibilizar na Internet catálogos para que compradores
façam cotações e depois tenham que fechar o negócio
off-line.
"Um portal de negócios, para ter sucesso, deverá, obrigatoriamente,
oferecer uma solução completa", afirma.
Essa solução completa, segundo o executivo, engloba a oferta
de funcionalidades que transfiram para a Rede todo o processo: cotação,
compra, leilão, acesso a crédito, liquidação
financeira e logística. "No B2B tudo pode ser melhorado. O
ambiente no qual as empresas, hoje, realizam seus negócios, é
ineficiente. A automação comercial de pequenas e médias
empresas, associada a portais com soluções completas, melhorará
a eficiência de toda a cadeia", prevê Alves.
FALTA
DE PADRÃO PREJUDICA VENDAS
Quando o assunto é a venda de produtos pela Internet, a categoria
mais problemática continua sendo a de mercadorias que precisam
ser adaptadas a cada consumidor. "São produtos que não
têm padronização. Por isso seu comércio é
complicado. Imagina comprar uma roupa ou um sapato sem experimentar?",
diz Antônio César Oliveira, ressaltando que não há
como mudar a situação nesses segmentos.
Segundo o consultor, uma forma de diminuir o problema é a utilização
de show rooms. "O consumidor terá o contato físico, analisará a possibilidade
de compra e poderá efetivá-la pela Internet. Uma outra saída
é a aceitação da devolução e a possibilidade
de troca", explica. Oliveira confirma que os serviços são
os campeões em complicação, pois muitos pedidos dependem
de orçamento - algo difícil de ser feito virtualmente.
Jameson Rangel, dono da Web Marketing, assegura que qualquer produto vendido
por telefone ou catálogo pode ser comercializado pela Internet.
As estatísticas indicam que os itens mais populares na Rede são
pacotes de turismo, CDs, livros e softwares. E a razão é
simples: não costuma haver alteração em suas características.
Uma pesquisa recente divulgada pela Taylor Nelson Sofres constatou que
10% dos internautas no mundo fazem compras online. O estudo Global Ecommerce
Report envolveu mais de 30 mil internautas, de 27 países diferentes.
Cerca de 15% dos entrevistados planejam comprar através da Internet
nos próximos seis meses e 13% dos usuários afirmam já
terem feito pesquisas online sobre produtos e serviços, antes de
realizar alguma aquisição no varejo tradicional. Dos internautas
que já são consumidores virtuais, 29% compram livros e 20%
CDs.
Mas isso não significa que as portas do comércio online
estejam fechadas para outros produtos.
"O maior problema de roupas e calçados no Brasil é
a falta de padronização. No momento em que isso for superado,
será mais fácil vender esses produtos", afirma Jameson
Rangel.
Jovens
ainda compram pouco na Grande Rede
Rodrigo
Chia
Enquanto os empresários do mundo ponto-com tentam solucionar os
problemas que têm limitado o sucesso do comércio eletrônico
no Brasil, muitos consumidores em potencial ainda não conseguem
ver a Grande Rede como local apropriado para fazer suas compras. A 7ª
edição da pesquisa Internet Pop, do Ibope, mostra que 86%
dos 4,8 milhões de internautas brasileiros nunca
adquiriram um produto na Rede.
Mesmo já tendo passado quase dois dias conectado - entrou às
14 horas de um sábado e só desligou o computador às
6 horas da segunda-feira -, o estudante Anderson Cavalcante, de 18 anos,
nunca fez uma compra na Web. "Não compro porque não
confio, prefiro comprar ao vivo. As coisas na Web são muito caras,
tem que pagar o frete, mas o principal é a demora para receber
o produto", justifica.
SEGURANÇA. O estudante de engenharia de produção
Marcelo Varela, de 21 anos, alerta para outro fator inibidor: a segurança.
"Acho muito insegura a forma de pagamento com cartão de crédito.
Apesar de os sistemas serem feitos com o maior cuidado e tecnologia, sempre
existe um bug, uma brecha a ser descoberta por um curioso, que pode agir
de má-fé e causar grandes complicações",
afirma o universitário, que utiliza a Internet, diariamente, há
seis anos.
FAIXA ETÁRIA. Os dois jovens são representantes do
principal grupo etário de usuários da Internet. De acordo
com a 4ªedição da pesquisa Cadê?Ibope, os navegantes
de 15 a 29 anos representam 68% dos internautas do País. Mas o
panorama não é dos mais animadores para as lojas virtuais.
"Até hoje só comprei o convite para a festa Terê
Fantasy pela Internet. E porque eles entregam em casa e você só
paga quando está com o convite na mãos. Não tenho
coragem de fazer compras com número de cartão", diz
Lívia Lins, de 18 anos.
Em alguns casos, a própria empresa que opera a loja virtual pode
fazer o papel de concorrente e levar à desistência de uma
compra online. "Eu já pensei em comprar uma impressora no
site do Shoptime. Mas, quando chegou a hora, preferi comprar pelo telefone.
É bem melhor, bem mais rápido", conta Anderson. O estudante
tem outro problema que ainda é comum entre os consumidores brasileiros:
não possui cartão de crédito. Para adquirir um produto
pela Internet sem "dinheiro virtual", é necessário
percorrer um longo caminho, que inclui a impressão do boleto bancário,
fila no banco e transmissão do comprovante por fax ou imagem digitalizada.
EXPERIÊNCIA. Se uma simples compra ainda é um desafio
para muitos internautas, a vida à base de Internet parece uma realidade
distante. Embora sejam capazes de passar horas a fio conectados à
Rede, participando de bate-papos e procurando textos e arquivos musicais,
os jovens afirmam ser impossível consumir apenas na Web. "Eu
acho absurdo. Você precisa ter contato com o mundo. Eu adoro comprar
pãozinho na padaria da esquina. Essas coisas têm que ser
experimentadas", opina Lívia. "Muitas coisas simplesmente
não podem ser compradas sem o contato direto com o produto. Como
escolher um mamão na feira de domingo ou acertar o comprimento
e a largura de uma calça jeans", completa Marcelo.
RECLAMAÇÕES
MAIS COMUNS
Segurança: É preciso deixar bem claro que o site é
completamente seguro, ao menos nas telas em que são inseridos os
dados do cartão de crédito do cliente. A Amazon.com, por
exemplo, explica minuciosamente porque comprar lá é uma
atividade segura.
Gráficos pesados: Se o usuário tem que enfrentar
uma longa espera para fornecer os dados do seu cartão de crédito,
é possível que abandone a compra no meio do caminho. Como
nos sites de conteúdo, tudo tem que ser rápido e ágil.
Falta de profissionalismo: Como no varejo tradicional, o consumidor
exigente deseja profissionalismo. Um bom layout é o primeiro passo.
Não é recomendável contratar um amigo ou parente
para criar o Web site da loja virtual. Outro problema que ocorre com freqüência
é o usuário querer saber mais sobre um produto do site e
topar com a mensagem "ligue ou mande-nos um e-mail para obter mais
informações". A paciência do consumidor tem limite.
Poucas opções de pagamento: Muitos consumidores abandonam
suas compras porque descobrem no fim do processo que a única opção
de pagamento é o depósito bancário. Para o cliente,
não adianta comprar pela Internet, se tiver que sair de casa para
depositar o dinheiro no banco. Oferecer várias opções
de pagamento é essencial.
lNão há opção de devolução dos
produtos: É preciso deixar claro no site a política da loja
quanto à devolução de produtos. Como na Rede o consumidor
não tem contato físico com a mercadoria, a desconfiança
aumenta e a possibilidade de retorno é bem maior.
Fonte: www.webmarketing.ppg.br
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