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Domingo e Segunda,11 e 12 de Junho de 2000

Histórias de ex-servidores que aderiram aos PDVs
Sucessos e fracassos na escolha de onde investir o dinheiro

José Pinheiro Júnior

O anúncio da reabertura dos Programas de Demissão Voluntária (PDVs) em empresas e órgãos públicos a partir de julho, feito pelo Governo federal, já está levando antigos funcionários públicos a retomar o sonho de abrir o próprio negócio. Diante deste quadro, a análise dos motivos do sucesso ou fracasso de quem já seguiu este caminho torna-se fundamental para quem vai iniciar a "aventura" do mundo empresarial.

Enquanto alguns ex-servidores investiram com o dinheiro dos PDVs e hoje estão bem situados no mercado, outros fracassaram e sonham até em voltar a trabalhar para o Estado. Por isso, pesquisa de mercado e afinidade com o negócio são o segredo do sucesso.

Consultores e sindicatos de funcionários públicos revelam que, na maioria dos casos, os ex-empregados do Estado optaram por investir o dinheiro do PDV no ramo comercial. Bares, restaurantes e padarias estão entre principais preferências desses empresários de "primeira viagem".

Outras opções têm sido as lojas de presentes e a compra de vans para o transporte de passageiros entre o Centro do Rio e a Baixada Fluminense. Esta última ação tem se revelado das mais arriscadas para quem tem dinheiro para gastar, pois o setor já está saturado e não oferece muita segurança.

Instituições como o Banco do Brasil e o Banerj já realizaram mais de uma dispensa voluntária de funcionários, mas os resultados obtidos pelo Governo federal no corte de servidores não surtiram muito efeito. Cerca de 8% dos empregados do setor público aderiram a algum programa do gênero.

Incentivos dos PDVs

O tipo de PDV varia de acordo com a instituição ou empresa estatal, mas normalmente há um estímulo de um ou meio salário para cada ano trabalhado, acrescido de dois ou três meses de tíquetes-refeição e um tempo adicional de plano de saúde, dependendo do número de anos que o funcionário tem no Estado. Além disso, todos os que aderem ao PDV têm direito ao valor referente ao aviso prévio.

O Banerj, por exemplo, realizou dois PDVs antes de ser privatizado. Em ambos os casos, ofereceu meio salário por cada ano trabalhado, com um teto máximo de seis salários. Além disso, o banco ofereceu mais 90 dias de tíquetes refeição e maior prazo de inclusão no plano de saúde.

Os responsáveis pelo programa, na época, consideraram os resultados bastante satisfatórios.

O consultor e diretor da Acomp Consultoria e Treinamento, Antônio César Carvalho, lembra que muitos recém-saídos do Estado são profissionais gabaritados e que sempre exerceram bem sua atividade, mas na maioria das vezes não têm experiência gerencial e não seguem o que o mercado está pedindo, mas o que lhes parece mais cômodo.

- Como exemplo, temos novos empreendedores que resolvem abrir uma empresa com o dinheiro do PDV em algum local próximo a sua residência, mas péssimo do ponto de vista comercial.

Outros, não têm a menor idéia do que seja lidar com problemas burocráticos e não entendem do relacionamento com funcionários, o que gera muitos problemas - assinala Antônio César.

O risco de investir tudo

A falta de um estudo de viabilidade econômico-financeira também prejudica, segundo o consultor, os mais inexperientes. Em alguns casos, a pessoa investe todo o dinheiro que recebeu e não assegura nenhuma reserva técnica para o período de maturação do empreendimento. O retorno pode demorar para vir e, neste caso, muitos fecham as portas da empresa antes mesmo de crescerem.

- Este é um fato muito comum entre estas pessoas, que acham que é fácil abrir uma padaria ou um bar, por exemplo. Escutam que fulano ou beltrano abriram e vão com a cara e a coragem.

Obviamente, o risco de uma aventura destas é muito grande. Para que o sucesso venha, devem de preferência informar-se sobre o mercado e fazer cursos, no Sebrae, por exemplo, sobre como dirigir uma empresa - explica o diretor da Acomp.

A proprietária do bar MAC3, Marília de Almeida, de 44 anos, trabalhou 18 anos no Banerj e saiu com o PDV realizado pelo banco em janeiro de 1998. Recebeu cerca de R$ 20 mil e ficou um ano desempregada, procurando emprego em sua área (informática) sem conseguir.

Em abril de 1999, uniu-se ao irmão Cláudio Rodrigues, e ao também ex-bancário do Banerj Alonso Nogueira e, juntos, abriram o bar, situado no centro de Niterói. Gastaram cerca de R$ 80 mil e, hoje, têm recebido muitos clientes. O bar têm cinco funcionários.

- Se eu pudesse, teria ficado no Banerj, porque gostava do que fazia, mas não tivemos opção, pois a nossa unidade seria fechada em pouco tempo e eu sairia de qualquer maneira, se não quisesse ir para São Paulo. Assim, aceitei o PDV e hoje tenho a minha empresa. É bom pela liberdade de criar e fazer o que se realmente deseja em termos de inovação. A comida que servimos é caseira e agrada bastante aos clientes - destaca Marília.

Experiência dos outros

Ela conta que abriu o bar baseada na pequena experiência que o irmão tinha no ramo e também devido ao potencial que "enxergou" no ponto onde está instalado. A força do setor de alimentação também contribuiu para a escolha do ramo.

Outro que saiu do setor público foi Carlos Alberto Lorne. Depois de 17 anos de trabalho como caixa no Banco do Brasil, entrou em acordo com o banco e saiu em maio de 1997, com R$ 70 mil na mão. Comprou um imóvel e instalou a Padaria e Lanchonete Estrela do Pinheiro, próxima à Ilha do Fundão. Tem três funcionários e considera-se satisfeito com a atividade.

- O mais interessante é que, hoje, sirvo pães com manteiga e café para a agência em que eu trabalhava, no Fundão. Na ocasião em que eu saí, a minha situação era muito ruim, o salário estava defasado e eu até devia ao banco. Entrei em acordo, peguei o dinheiro e investi tudo na padaria - diz.

Sem arrependimento

- Hoje não quero mais voltar a ser assalariado, seria um retrocesso. Minha opção pela padaria deve-se ao grande número de clientes que um empreendimento do gênero recebe em uma região mais carente como esta - diz Lorne, que antes de abrir a empresa fez um curso sobre a manufatura de pães.

Cristina Maria Ramos não saiu do setor público, mas teve uma trajetória parecida com quem deixou as estatais através de um PDV. Depois de 12 anos de trabalho com gerente de operações no condomínio do Casa Shopping, conseguiu um acordo e, com o dinheiro, abriu a loja de presentes Bella Cris, situada em Jacarepaguá. Em 99, abriu uma nova unidade no Botafogo Praia Shopping e, hoje, está satisfeita com sua vida de empresária.

- Prefiro ser uma empreendedora, pois cuido de meu próprio nariz. Não tenho queixas da empresa na qual trabalhei, mas estou melhor agora. Sentir que se está crescendo e lucrando realmente com o fruto de seu próprio esforço é realmente fantástico. Ainda assim, para o sucesso, acho importante a pessoa ter informações sobre o ramo em que está entrando e sobre a atividade empresarial - aconselha Cristina. Ela fez um curso no Sebrae-RJ sobre a administração de uma empresa.

Serviço:
Bar MAC3 - 719-6841
Padaria e Lanchonete Estrela do Pinheiro - 290-9957
Bella Cris - 443-8130 e 237-9311
Acomp - 445-5444

O OUTRO LADO DA MOEDA

Nem só de sucesso, porém, é a vida de quem fez parte de algum programa de demissão voluntária. Um ex-funcionário do Banerj, que prefere não se identificar, aceitou ingressar no PDV que o banco promoveu em 1996 e recebeu, na época, cerca de R$ 20 mil. Pegou o dinheiro, comprou uma van e resolveu atuar no transporte de passageiros entre o Rio de Janeiro e os municípios da Baixada Fluminense. Conseguiu permanecer no setor durante seis meses, sem registrar qualquer resultado financeiro mais significativo. Em seguida, veio o desastre.

- Fui roubado e, infelizmente, tinha gastado boa parte do dinheiro no carro e no negócio. O restante eu já gastara antes. Hoje, estou muito pior do que estava quando no banco e gostaria, realmente, de voltar. Sair de uma atividade na qual estava habilitado e entrar em uma aventura é um risco muito grande. O Governo precisa ver que nem todo mundo quer ou pode tornar-se um microempresário - lamenta o ex-funcionário do Banerj, que trabalhava como auxiliar de escritório e tenta, hoje, retornar ao Governo do Estado através de processo judicial. Ainda assim reconhece ter poucas esperanças.

Outro ex-funcionário público, do Serviço Federal de Processamento de Dados do Ministério da Fazenda (Serpro), saiu do órgão com mais de R$ 25 mil nas mãos e resolveu, também, abrir um bar em Nova Iguaçu. A empreitada não durou nem um ano. Por falta de experiência, fechou as portas e, hoje, está dando aulas de informática para crianças, também na Baixada.

- Não estou passando fome, mas meu nível salarial realmente caiu. Não tinha experiência e acreditei que seria fácil ganhar dinheiro com a venda de comida e bebida, mas não escolhi um bom ponto, nem sabia como ser um empresário, ainda que de pequeno porte. O resultado foi um investimento jogado fora e muita dor de cabeça para pagar as contas - reconhece.

RECEIO. Tanto risco assusta a técnica em informática Danusa Asmar que, em fevereiro do ano passado, também saiu da Serpro através de um PDV e, até hoje, não decidiu aplicar o dinheiro em algum negócio próprio. Ela continua desempregada e está fazendo um curso para tentar uma vaga no Judiciário Federal. Danusa enfatiza que foi praticamente obrigada a sair do Serpro.

- Chegaram e disseram que dos mais de 100 funcionários só restariam pouco mais de 30, pois todos seriam cortados. Disseram para que nós aderíssemos ao PDV e foi o que fiz. Mais tarde, descobri que ninguém que ficou foi realmente demitido. As incertezas sobre a economia brasileira e os riscos de tentar uma vida de empresária, para o qual ainda não estou preparada, me impediram de abrir algum empreendimento - explica Danusa.

Ela revela que tem cerca de R$ 50 mil para investir, mas atualmente sua família tem sobrevivido apenas do salário de seu marido, analista de sistemas do próprio Serpro.

 

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