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 ECONOMIA
Domingo, 12 de setembro de 1999 
Loja de rua enfrenta shopping

Empresários se unem, investem em modernização e tentam recuperar os consumidores para sobreviver

ROSANE SERRO

Foto de Antonio Lacerda

Ele quase foi devastado pelos edifícios refrigerados de grande porte, com generosas áreas de lazer, estacionamento para centenas de carros e forte esquema de segurança que brotaram na cidade há pelo menos 20 anos. Mas o comércio tradicional do Rio de Janeiro - baseado nas casas com vitrines espelhando as calçadas e balconistas que podem conhecer o cliente pelo nome - está ressurgindo através da ação conjunta dos lojistas que estão se modernizando e tentando reorganizar os seus processos de venda para enfrentar uma nova batalha contra o Golias Shopping center.

A Sociedade dos Amigos da Rua da Alfândega e Adjacências (Saara), a Avenida Nossa Senhora de Copacabana e a Rua Visconde de Pirajá, em Ipanema, são alguns dos pontos onde essa tendência pode ser notada. Projetos culturais, política de descontos conjunta, preocupação com a segurança e o atendimento dos desejos básicos do consumidor são algumas das táticas utilizadas por essas comunidades para revitalizar a atividade comercial local.

O resultado tem sido quase sempre positivo. A Saara está conseguindo financiamentos oficiais para alavancar os seus projetos, o comércio de Copacabana está com fôlego renovado a partir da chegada de novas grifes ao bairro e os ipanemenses terão mais horas para exercerem o seu poder de compra com a extensão do horário de funcionamento das lojas.

Na semana de 20 de setembro, os 840 lojistas da Saara vão aumentar o nível da sua adrenalina. Nesse período, a Sociedade lançará um cartão de crédito com a sua marca, iniciando assim a concretização do plano de revigoramento da região acalentado há mais de três anos.

O projeto Saara é, na verdade, um conjunto de ações que começa com a construção do portal Saara, um edifício com terminal rodoviário, estacionamento rotativo para 2.500 carros, área para descarregamento de mercadorias, delegacia, cinema, teatro e espaço para eventos. Simultaneamente, o projeto prevê a informatização de todas as lojas, a criação de um banco de dados único e a implantação de uma Intranet interligando associados e fornecedores em uma rede única para troca de crédito e informações.

"O Projeto Saara é muito mais do que uma solução de informática. Trata-se de um grande esforço para fixar os clientes dentro das lojas da região", explica o presidente da entidade, Ênio Carlos Bittencourt. Segundo ele, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) já ofereceu R$ 18 milhões para financiar a construção do portal, localizado entre as Ruas Tomé de Souza e Regente Feijó.

Desse esforço participam ainda os 42 fornecedores cadastrados pela Saara para fazerem parte da iniciativa. São financeiras, bancos e seguradoras que vão repassar para a sociedade um percentual do lucro conseguido com as transações realizadas com o comércio local. Esse total financiará novas ações para impulsionar a região.

A Saara compreende hoje 840 lojas, 360 sobrelojas, 400 escritórios comerciais e contabiliza oito mil operações eletrônicas de autorização de crédito diárias. No último Natal, as ruas receberam cerca de 1,5 milhão de consumidores e há um ano os lojistas perceberam um aumento de 15% nas vendas, provocado basicamente por compradores de outros estados. "Somos um centro de abastecimento com mercadorias de qualidade a preços muito baixos. Queremos amplificar a nossa vocação", conclui Ênio Bittencourt.

Centro mantém a tradição

Região reúne lojas variadas e enfrenta o desafio dos shoppings

ROSANE SERRO E ROBERT GALBRAITH

Lojistas eufóricos no Saara e melancólicos na Rua da Carioca. Grifes no quadrilátero da Quitanda com 7 de Setembro e marcas populares na Rua Gonçalves Dias e adjacências. O comércio do Centro é multifacetado e cada ponto de sua dispersa geografia vive uma realidade diferente.

Mesmo assim, uma recente pesquisa da Federação do Comércio do Rio apontou o bairro como a terceira preferência dos cariocas como local para consumo nas datas festivas; sendo ultrapassado apenas pela Barra da Tijuca (leia-se Barrashopping) e por Botafogo (em função do Rio Sul).

Modernização urgente - Mas se o lojista do Centro quiser competir com o shopping, seu inimigo natural, terá que modernizar a administração do seu negócio e até mesmo o seu atendimento. "O cliente está com pouco tempo para consumir porque trabalha cada vez mais para sobreviver. Por isso ele está mais seletivo e fazendo compras privilegiando o seu conforto. Daí o sucesso dos supermercados 24h, serviços de entrega a domicílio, lojas de conveniência e comércio via Internet", avalia o consultor da Acomp, Antônio César de Oliveira.

O especialista afirma que o Centro do Rio vive um "estado de agonia" e a única maneira de fazê-lo reviver seria um investimento conjunto do Estado com a iniciativa privada para revitalizar o espaço; fazendo obras para melhorar o acesso e a infra-estrutura de serviços, como estacionamento e iluminação.

"Mas parede pintada e luz acesa não vendem sozinhas. Os comerciantes têm que passar por uma mudança de hábito completa", atesta Oliveira, um dos responsáveis pela renovação do Centro comercial de Nova Iguaçu no projeto de adequação à Via Light.

Receituário - O consultor aconselha aos lojistas a pautarem o seu negócio a partir da vontade do cliente e a investirem cada vez mais em treinamento de pessoal, tecnologia, pesquisas de mercado e terceirização. Por outro lado, ele lembra que os comerciantes do Centro podem e devem continuar a negociar e atender bem, reduzir custos e comissionar vendedores.

"O tempo dos vendedores de bigode na porta das lojas de eletrodomésticos selecionando quem é cliente e quem é caroço, passou. O consumidor hoje quer bom atendimento e agilidade", explica o diretor da Acomp. Para ele, os comerciantes tradicionais estão entrando na batalha pela modernidade com "trabucos da época do descobrimento" ao adotar soluções sem embasamento técnico e concentrar o seu diferencial em preço e não em serviços que aumentem o valor agregado dos produtos comercializados.

Resistëncia a toda prova

Lojas centenárias sobrevivem mas temem crise atual

Já houve tempo em que o belo tipo faceiro que flanava pelo Centro da Rio comprava chapéu feito à mão na A Radiante, do Sr. Tavares, escolhia discos nas Lojas Palermo e renovava o uniforme dos filhos na Casa Mathias. Essas e outras lojas como A Mala Moderna; o Parque Royal; A Imperial; O Rei da Voz; a Casa Canadá; o Hidrolitol e o Magazine Louvre fizeram a história do comércio do Rio mas sucumbiram à sucessão de planos econômicos e à mudança do perfil do consumo carioca.

Entretanto, existem estabelecimentos que resistem às intempéries econômicas e conseguem manter seu prestígio, ainda que a custo de muita demissão, renegociação de aluguéis e corte de despesas essenciais como publicidade e luz. Só não sabem por quanto tempo.

"O comércio está sufocado. Não há uma rua do Rio onde não existam lojas fechadas", aponta Waldir Ricart, 71 anos, proprietário da óptica O Pince-Nez de Ouro. Localizada à Rua da Carioca, 28, a loja inaugurada em 1910 chegou a ter 18 funcionários mas hoje funciona com 12 empregados e pode fazer novos cortes, caso a recessão não seja abrandada.

"É triste ver que trabalhei 50, 60 anos e no fim da vida andei para trás", lamenta Waldir Ricart, que responsabiliza a política econômica do governo Fernando Henrique pelo pior momento já enfrentado por sua administração. Com o falecimento do pai, em 1964, ele tomou seu lugar na condução do negócio mas não pensa em repassar a tarefa para as duas filhas. "Para pegarem esse rabo de foguete?", questiona.

A mesma sensação é experimentada pela vizinha e também tradicional A Guitarra de Prata. Fornecedora preferida do clarinetista Paulo Moura e do violonista Baden Powell, a loja de instrumentos fundada em 1887 e ponto de encontro de Pixinguinha, Noel Rosa e Dilermano Reis está numa luta diária pela sobrevivência. Desde a desvalorização da moeda ocorrida em janeiro, a empresa tenta manter o impossível equilíbrio de um negócio em que 85% dos cinco mil itens comercializados são importados.

"Tentamos fugir comprando instrumentos de fornecedores nacionais mas eles ficaram desestruturados desde a abertura às importações promovida pelo governo Collor. Resultado: não temos volume, nem produtos de qualidade e tampouco conseguimos fixar prazos de entrega", explica a gerente Elenice Costa. A loja que já teve 90 funcionários, opera hoje com apenas 17 e tenta criar alternativas de receita como o aluguel de instrumentos e cursos de software para a produção de música eletrônica.

A idéia de ampliar a atuação para manter a saúde financeira também foi adotada por Armando de Azevedo Faria e Licia Barbosa Faria, proprietários da joalheria Esmeralda. Há 10 anos, eles adquiriram o estabelecimento inaugurado em 1895 e há dois decidiram utilizar a marca centenária em um empreendimento no Norte Shopping. A aventura só durou um ano. "Apesar de tudo, fatura-se mais com a loja de rua", conclui Armando Faria, que voltou a se dedicar exclusivamente à esquina da Ramalho Urtigão com Sete de Setembro. (R.S.)

Copacabana tem novas redes

LUCIANA BRAFMAN
Especial para o JB

A concorrência dos shopping centers abalou, mas não destruiu o comércio de Copacabana. Com fôlego renovado, as novas e antigas lojas do bairro mais famoso do Brasil esperam para este ano um faturamento igual ao do ano passado, um resultado positivo devido à crise econômica atual. O momento favorável do bairro conta também com a promoção CopaFeliz. A partir de terça-feira, nas lojas participantes, a cada R$ 15 em compras, o consumidor ganha uma raspadinha com descontos de 5% a 100%.

O presidente da Associação Comercial de Copacabana (Ascopa), Roberto Masluch, destaca o desaparecimento dos camelôs, movimento que começou há cerca de cinco anos, como um marco na retomada do comércio de Copacabana. "Quando acabou a camelotagem, começaram a aparecer grandes lojas, inclusive as de shopping", lembra Masluch. A renovação de lojas foi benéfica para o comércio", complementa. Segundo ele, os lojistas que fecharam as portas, para dar lugar às novas grifes do bairro, não se adaptaram à modernização do varejo e quebraram.

É justamente o investimento em modernização a estratégia da butique Camí, de roupa feminina. Há 25 anos no coração de Copacabana - na Rua Figueiredo de Magalhães, próximo à Avenida Nossa Senhora de Copacabana -, a loja mantém seu público fiel, através da diversificação e acompanhamento das tendências da moda. "Começamos atendendo jovens senhoras, depois suas filhas e agora já estamos na terceira geração", conta Cami Nigri, proprietária do negócio. Ela acredita que quem mora em Copacabana é fiel ao comércio local. "Para manter tanto tempo as clientes e conquistar um público novo, estamos sempre com as últimas novidades da moda."

Além das lojas tradicionais, o bairro conta, ultimamente, com novas marcas. Segundo a Ascopa, só no setor calçadista foram abertas seis lojas desde janeiro, entre elas a badalada Mr.Cat. Foi inaugurado, também recentemente, o fast-food Habib’s, na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, esquina com a Rua Siqueira Campos. A novidade é que a loja vai funcionar 24 horas, sinalizando uma futura revitalização noturna do bairro.

O franqueador das lojas de fotografia DePlá, Daniel Plá, confirma a retomada do comércio de rua em Copacabana. "As lojas de Copacabana sofreram um grande impacto com a abertura do Rio Sul. Agora, está havendo uma volta dos lojistas", analisa Plá, cujas seis lojas no bairro aumentaram o faturamento em 35% nos últimos tempos.

Ipanema volta a lançar moda

ANA CRISTINA DUARTE

Se Copacabana foi o primeiro dos bairros a receber as filiais das tradicionais lojas que levavam consumidores afoitos ao Centro do Rio, Ipanema, por sua vez, lançou moda a partir dos anos 70 com as vanguardistas Lelé da Cuca, Biba e Mariazinha. Foi também o bairro que impulsionou grifes mais novas como a Cantão ou mesmo a Company, na década de 80, aos corredores dos principais shoppings cariocas.

Grifes que, aliás, ainda sobrevivem hoje na extensa passarela formada pela Rua Visconde de Pirajá. E que mesmo sem viver seus melhores dias, buscam alternativas, a exemplo do bairro vizinho de Copacabana, para manter o faturamento do comércio local em boa forma.

Ao todo, somam em torno de 4 mil lojas, segundo dados da Associação Comercial de Ipanema e Adjacências. A partir do próximo dia 18, parte delas, essencialmente as situadas na esquina das ruas Aníbal de Mendonça e Visconde de Pirajá se unem no projeto "Qual é a boa" - que levará um balcão de troca de informações culturais ao local, prometendo esquentar o movimento do comércio na região. "A idéia é que as lojas da área que funcionam até às 14h aos sábados passem a estender seus horários até as 19h", explica o vice-presidente da Associação Comercial do bairro, José Outão.

O projeto é do estilista de bolsas Gilson Martins e de acordo com Outão poderá ser levado a outros trechos de Ipanema, revitalizando o consumo no bairro. Atualmente, cerca de 15 lojas na Visconde de Pirajá entre a Henrique Dumont e a Aníbal abrem nas tardes de sábado, como a Fabricatto, Papel Principal, Shop 126 e Equatore. "Mas o grande problema que ainda enfrentamos, além da recessão no varejo, é a falta de segurança e estacionamento", diz Outão. Desde meados do ano passado, 20 estabelecimentos comercias de Ipanema fecharam suas portas, entre eles a Adonis.

Shoppings se espalham pela cidade

Setor faturou US$ 14 bilhões em 1998 e continua
crescendo. Mas é preciso planejamento, diz analista

LUCIANA BRAFMAN
Especial para o JB

Espalhados pelo Rio de Janeiro, os shoppings centers estão se proliferando. Altos investimentos, casos de sucesso e reclamações fazem parte do negócio, que em 1998 movimentou US$ 14 bilhões. O grupo Multiplan, responsável, entre outros, pelo Barra Shopping, continua acreditando no setor. Até o fim de 2000, vão abrir mais três empreendimentos: o New York City Center, no Rio; o Anália Franco, em São Paulo; e o Cristal Shopping, em Porto Alegre.

"É preciso, no entanto, que se faça um bom planejamento de mercado", analisa o superintendente da Multiplan, Celso Abramovitz. "Estamos sentindo o varejo retraído e uma overdose de shoppings. Não basta construir e achar que tudo vai dar certo", acrescenta, referindo-se aos inúmeros shoppings da Barra da Tijuca.

Para fugir da Barra, a Administradora Carioca, apoiada por pesquisas de mercado, apostou no potencial de Vicente de Carvalho. O bairro da Zona Norte ganhará seu primeiro shopping - o Carioca Shopping - em abril de 2001. O empreendimento é uma iniciativa conjunta de seis tradicionais empresas do ramo: Ancar, Atlântica, Barpa, Shopinvest, Supra e Sogim, que deve investir R$ 80 milhões no novo shopping.

Num futuro próximo, outros três shoppings serão inaugurados no Rio de Janeiro: o Botafogo Praia Shopping, em novembro deste ano; o Passeio Shopping, em novembro do ano 2000 e o Center Shopping Rio, em 2001.

Indiscutível, o sucesso do formato shopping center no Brasil é explicado pelo mix de lojas oferecido, facilidade de estacionamento e segurança. Por outro lado, os altos custos de aluguel e condomínio têm inibido e afastado algumas lojas "Estou há dez anos no setor e não conheço um lojista que não reclame dos custos", ressalta Abramovitz. Ele lembra que os balanços contábeis estão à disposição na administração do shopping para quem quiser conferir os custos. Para Daniel Plá, das lojas DePlá, além dos altos custos, a falta de transparência nas contas e a má administração dos shoppings são os principais problemas. "Não estou no Rio Sul devido aos custos", diz.

Rua ainda é bom negócio

Com oito lojas nos principais shoppings do Rio e nove filiais de rua a Shop 126 vai bem, obrigado. "Geralmente, shopping é o que vende mais", diz a gerente comercial da loja, Jane Alt. Para ela, o horário de funcionamento dos shoppings é o grande aliado das vendas. Ainda assim, Jane vê uma estabilização nesse setor e um crescimento das lojas de rua. "Como algumas delas não pagam aluguel, acaba compensando", explica.

Segundo ela, essas lojas, principalmente as do Centro, mesmo sem estacionamento, têm a conveniência de estar perto do trabalho da maioria das pessoas. E como muitas chegam cedo para fugir do trânsito, acabam comprando alguma mercadoria. A intensificação dos happy hours ajudou bastante o setor, já que muitos passaram a freqüentar mais o local.

Já Geraldo Maroniene, gerente de marketing da Redley, prefere investir nas lojas de rua. Recentemente, fechou uma filial no Madureira Shopping devido aos altos preços dos aluguéis. Mudou-se para um ponto em frente ao shopping e vem obtendo bons lucros. "A economia mudou e as administradoras querem adotar uma postura de primeiro mundo com custos muito altos", reclama ele. Quem endossa o discurso é o diretor das lojas Mr. Cat, Ary Nelson. "grande desvantagem dos shoppings em relação à rua é que em períodos de vacas magras, os altos custos dos shoppings aliados à crise não permitem que as lojas tenham uma sobrevida como acontece com os estabelecimentos de rua". (L.B.)

 

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