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Domingo, 05 de agosto de 2001.


Negócios em sociedade






Quando um negócio vai mal, é muito comum culparem logo as incertezas da economia, a falta de padronização gerencial ou a má definição do perfil dos clientes. Só que muita gente esquece que o problema pode estar, simplesmente, nas divergências entre os sócios. Afinal, se achar uma alma gêmea já é uma tarefa difícil, encontrar um sócio cara-metade é quase uma utopia. Pior é quando o tal sócio – e, até então, seu grande amigo - te passa para trás? A primeira coisa que vem à cabeça é o velho jargão "amigos, amigos, negócios à parte". Mas será que precisa ser sempre assim?

A busca pelo poder individual é um dos principais fatores determinantes dos conflitos entre sócios. A advogada Magda Freire, ex-sócia do marido em uma papelaria, teve sérios problemas com o matrimônio empresarial. "O maior problema era a falta de diálogo, já que ele era extremamente dominador e queria fazer tudo sozinho. Quem quer crescer precisa de um sócio maleável, o que não era o caso dele. Ele acabou cheio de dívidas e, quando faleceu, eu tive que assumir tudo sozinha ", recorda. Como estava viúva, sozinha e perdida diante de tantos problemas, Magda acabou procurando ajuda. "Fiz uns cursos no Sebrae, o de gerenciamento de loja e preços de varejo, e lá me deram orientação. Num dos cursos conheci um consultor que me ajudou muito. Ele esteve na minha loja e graças à ele não tive um prejuízo maior", admite.

Assim como Magda, muitas pessoas buscam ajuda quando enfrentam problemas nos negócios e um bom trabalho de consultoria pode resolver muitas dores de cabeça. O professor de administração e qualidade total do Sebrae e sócio-diretor da empresa Acomp Consultoria e Treinamento, Antônio César Carvalho de Oliveira, explica que se deve ter muito cuidado na hora de formar uma sociedade. "É preciso definir claramente as competências e os valores de cada um na sociedade e nunca misturar o lado emocional com o racional. Se o sócio for uma pessoa desconhecida, é fundamental checar todos os dados dele e estudar suas expectativas para que os objetivos sejam os mesmos", aconselha. Mas na sociedade entre parentes e amigos não há somente pontos negativos. "O ponto positivo é o fato de todos se conhecerem e haver confiança", garante Antônio César.

Mesmo depois de enfrentar grandes problemas nos tempos em que era sócia do primeiro marido, Magda continua apostando numa união "conjugal" nos negócios. Agora, com seu atual companheiro, ela divide a sociedade de uma fábrica e garante que a união entre marido e mulher nos negócios pode dar certo. "Com ele é totalmente diferente, nós saímos juntos para negociar e ele sempre pede a minha opinião. Isso antes não acontecia. A gente tem um bom entendimento e tudo está correndo muito bem", garante a advogada.

Este é o ponto chave da questão: administrar o lado profissional com o relacionamento pessoal. Para o psicólogo Paulo Próspero, o segredo é delimitar os espaços. "As pessoas têm que saber separar as coisas muito bem. Teoricamente, a intimidade permite tudo, mas a formalidade é muito mais amiga dos negócios. Essa é a principal dificuldade dos casais que têm um negócio em comum", aponta. Agora, quando os limites são respeitados, a chance de o negócio dar certo é muito boa. "É a perfeita união do útil ao agradável: você conhece a pessoa, confia nela e tem objetivos em comum. Dentro e fora de casa", garante.

A sociedade é um pacto com objetivos específicos que requer alguns pré-requisitos fundamentais: clara visão do objetivo da sociedade, conciliação de interesses individuais, afinidades de pontos de vista em relação à postura comercial, capacidade de lidar com divergências e, principalmente, a confiança mútua. O problema é que, na maioria das vezes, o entusiasmo em abrir um negócio com um grande amigo não permite que essas questões sejam avaliadas. Foi exatamente isso que aconteceu com a empresária Roberta Gomes, que foi sócia dos irmãos e de um amigo numa loja de roupa masculina. "O problema é que o nosso amigo não tinha nenhuma experiência em confecção e, para trabalhar com moda, a pessoa tem que ter uma visão diversificada. Ele queria uma moda mais tradicional, eram objetivos diferentes. Nós resolvemos terminar a sociedade amigavelmente: ele ficou com a loja, pagou nossa parte e abriu uma de moda feminina no mesmo ponto e nós ficamos com o estoque e abrimos uma em outro shopping. Hoje, continuo a sociedade com meus irmãos e conto com a vantagem de haver mais confiança entre nós, pois quando o sócio é desconhecido sempre tem alguém querendo se beneficiar", afirma Roberta.

Antônio César afirma que, se todo pequeno empresário fizesse um estudo de viabilidade econômica, 95% das empresas dariam certo, pois aprenderiam a dinâmica do negócio. Antônio estabelece ainda algumas regras fundamentais trabalhadas numa consultoria: "É necessário estabelecer o ponto de equilíbrio do negócio, ou seja, o mínimo que ele tem que faturar para pagar as contas, o prazo de retorno do capital investido, estabelecer metas de venda com mais facilidade, saber calcular melhor a lucratividade do negócio, os preços de venda e o capital de giro, que é uma reserva técnica para poder movimentar a operação, ou seja o dinheiro que precisa para alavancar outras compras. A gente planeja um negócio pequeno como se fosse grande, mas com um custo acessível", explica o consultor.

Então, se o seu sócio já se tornou figura constante nos seus pesadelos, talvez seja hora de rever a situação. Quando não há mais o que fazer e o fim da sociedade parece inevitável, o problema pode ser resolvido em comum acordo, sem maiores brigas, ou de forma litigiosa. "Quando a sociedade é dissolvida amigavelmente, basta fazer uma alteração no contrato social da empresa. Mas se for de forma litigiosa, tem que ser feita em uma Vara Cível, pois abrange a área comercial", explica o advogado Altair Santos. Ele acrescenta, ainda, que qualquer alteração numa empresa deve ser comunicada à Junta Comercial, onde o contrato foi registrado, e que se tenha, é claro, o consentimento dos sócios.

E para quem sonha em abrir uma empresa, seja com o marido, a mulher ou com aquele grande amigo - que depois pode se tornar seu pior inimigo -, Fernanda Mannarino, técnica do Sebrae, dá alguns conselhos: "A pessoa tem que estudar bastante a atividade, fazer uma pesquisa de mercado, ter um mínimo de capital para não depender de financiamento de banco, ter uma característica empreendedora, ser responsável, persistente e ter confiança no sócio". Resumidamente, se os sócios têm consciência de que os verdadeiros objetivos da empresa devem prevalecer sobre os interesses pessoais de cada um e que todos os esforços têm que ser utilizados com o intuito de superar os obstáculos do mercado, tudo fica mais fácil. Inclusive para o sucesso da empresa.

Agradecimento:

Antônio César Carvalho de Oliveira - Professor de Administração e Qualidade Total do Sebrae e sócio-diretor da Acomp Consultoria e Treinamento.
Tel: (21) 2445-5444

Fernanda Mannarino - Técnica do Sebrae.
Tel: (21) 2569-1575

Dr. Altair Santos - Advogado.
Tel: (21) 9953-47651

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por Graziella Cataldo

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